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Um guerra esquecida no interior de Santa Catarina

Uma pequena vila de colonos no interior de Santa Catarina transformou-se abruptamente em virtude dos rumores de guerra na Europa. De uma hora para outra, Vitoldo, sua esposa Brune, e seus vizinhos, se viram “na mira” das autoridades e se transformaram em inimigos da pátria. O motivo: seus sobrenomes Müller, Schroeder, Schneider ou Zimmermann, entre outros, e o fato de mal saberem falar a língua portuguesa, os colocaram no centro desta história contada com a maestria do conceituado jornalista catarinense, Silveira Júnior.


O próprio Silveira Junior reconhece, em suas linhas iniciais, que Santa Catarina deve muito de seu desenvolvimento à colonização alemã. Por isso mesmo, foi um período vergonhoso o sofrimento imposto aos descendentes destes colonizadores durante o período da Segunda Guerra. Em todo o Estado não faltaram relatos de desmandos contra essa gente – em sua maioria humilde – que jamais pisou no solo de seus antepassados e que sequer conheciam a doutrinação nazista que imperou durante o III Reich.


Em sua obra, Silveira Júnior descreve a vida pacata na colônia fictícia situada na região de centros maiores como “Ipirramos” (Ibirama) ou “Blumenthal” (Blumenau). Fala de um tempo de progresso, com a chegada da rádio – e de privações, como a proibição dos colonos em falar alemão ou o fechamento de escolas onde as aulas eram ministradas na língua dos colonos.


No fundo, “Nossa Guerra contra a Alemanha” pode ser lido como um pedido de desculpas por um tempo em que pessoas inocentes foram hostilizadas e vitimizadas simplesmente em virtude de sua origem, sem qualquer culpa pelo conflito que assolava o planeta a milhares de quilômetros de distância.


Trecho da obra:


... “Brune não contém o seu desespero:

- Eu queria que o Adolf aprendesse bem, até ser um doutor, mas se ele vai estudar em brasileiro, então ele nunca vai ser nada, que nem nós.

O doutor Kröner não teve argumentos para conter o desânimo que se abateu sobre Brune, mas, mesmo assim, insistiu:

- Eu estou dizendo aquilo que acho melhor para vocês. O Brasil vai declarar guerra à Alemanha e eu penso que as coisas vão piorar para o nosso lado. Como vocês são colonos e não sabem se defender, eu penso que muitos de vocês acabarão presos, pelo menos até que a Alemanha ganhe essa guerra.

Brune era teimosa:

- Mas nós não tem nada com essa guerra.

- Não temos, mas o governo brasileiro é obrigado a ir onde os americanos vão. Por isso, a minha recomendação é que vocês ensinem o Adolf a falar português. Assim, ele não será perseguido nas escolas brasileiras que vão substituir as escolas alemãs.

E continuou tentando convencer Brune:

- O Adolf não pode crescer como vocês, que não sabem falar nem português nem alemão. Então é melhor aprender o brasileiro, porque é aqui que vocês terão que viver, já que não é fácil mudar-se com a família para a Alemanha.

Isso Brune achou certo:

- Eu não sabe direito nenhuma das duas línguas: falo um pouco brasileiro e um pouco alemão. Se o Vitoldo falava alemão então era melhor, mas ele só entende um pouco, por isso eu falo com ele em alemão, mas ele sempre responde em brasileiro.

E concluiu sua argumentação:

- Por isso eu queria que o Adolf falasse só alemão, porque brasileiro, depois de grande, ele aprende com os negros e caboclos.

O doutor Kröner ainda tentou dissuadir Brune e antes de continuar a viagem até Xituli, voltou a insistir:

- É bom vocês irem se acostumando a falar brasileiro em casa”...

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